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Uma Paixão Nascida em Chaves | Mulheres de Prazer
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Uma Paixão Nascida em Chaves

Uma Paixão Nascida em Chaves

Uma Paixão Nascida em Chaves

PARTE 1 – O Encontro nas Águas Termais

O início do outono transformava Chaves numa cidade ainda mais acolhedora.

As folhas douradas cobriam lentamente os passeios, o aroma das castanhas assadas espalhava-se pelas ruas históricas e o rio Tâmega refletia a luz suave do final da tarde. As muralhas antigas, as casas de pedra e a famosa ponte romana pareciam contar histórias de outros séculos a quem caminhava sem pressa.

Afonso chegou a Chaves numa sexta-feira ao início da tarde.

Era engenheiro civil e passara os últimos meses envolvido em grandes projetos que quase não lhe deixavam tempo para descansar.

Depois de concluir uma obra importante no norte do país, decidiu permanecer ali durante um fim de semana.

Precisava de silêncio.

De boa gastronomia.

E de uma cidade onde pudesse voltar a respirar sem olhar constantemente para o relógio.

Instalou-se num pequeno hotel próximo do centro histórico.

Pouco depois saiu para conhecer a cidade.

Sem mapa.

Sem itinerário.

Gostava de descobrir os lugares deixando-se guiar apenas pela curiosidade.

Enquanto caminhava pelas ruas antigas, chegou à zona das famosas termas.

Ali o ambiente era tranquilo.

As pessoas conversavam calmamente, outras passeavam junto aos jardins e algumas simplesmente descansavam ao som da água.

Foi nesse momento que reparou nela.

Sentada num banco de pedra, uma mulher observava atentamente um pequeno caderno onde fazia desenhos a lápis.

Ao seu lado repousava uma chávena de chá ainda quente.

O vento movia delicadamente algumas folhas do caderno.

Quando uma delas quase se soltou, Afonso aproximou-se discretamente e segurou-a antes que voasse.

Ela levantou os olhos.

Sorriu.

— Obrigada.

Esse desenho ainda não estava terminado.

Afonso entregou-lhe a folha.

— Seria uma pena perdê-lo.

Ela fechou cuidadosamente o caderno.

— Chamo-me Carolina.

— Afonso.

Conversaram durante alguns minutos.

Carolina era ilustradora e trabalhava frequentemente para editoras dedicadas ao património português.

Sempre que iniciava um novo projeto, escolhia uma cidade diferente para passar alguns dias.

Gostava de desenhar edifícios históricos, jardins e pequenos detalhes arquitetónicos que normalmente escapavam aos visitantes.

Afonso perguntou:

— E porque escolheste Chaves?

Ela sorriu.

— Porque é uma cidade onde tudo parece acontecer devagar.

E quando o tempo abranda... começamos finalmente a reparar nas coisas importantes.

Afonso reconheceu imediatamente aquela sensação.

Era precisamente isso que também procurava.

Continuaram juntos até ao Ponte Romana de Chaves.

Pararam a meio da ponte.

O rio seguia calmamente o seu percurso.

As árvores refletiam-se na água.

Algumas aves sobrevoavam lentamente o vale.

Carolina retirou novamente o pequeno caderno.

Começou a desenhar.

Afonso observava em silêncio.

Poucos minutos depois ela mostrou-lhe o resultado.

Não era apenas a ponte.

Era a atmosfera.

A luz.

O reflexo.

O silêncio daquele instante.

Tudo parecia ganhar vida no papel.

— Tens um talento extraordinário.

Ela sorriu discretamente.

— O segredo não está em desenhar melhor.

Está em observar durante mais tempo.

Continuaram a caminhar pelas ruas estreitas do centro histórico.

Entraram em pequenas livrarias, lojas tradicionais e cafés onde os proprietários cumprimentavam os clientes pelo nome.

Ao final da tarde sentaram-se numa esplanada voltada para a praça principal.

As conversas tornaram-se mais pessoais.

Falaram das suas famílias.

Das viagens.

Dos sonhos que ainda pretendiam realizar.

Da importância de encontrar equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.

Nenhum dos dois sentia necessidade de impressionar o outro.

Tudo acontecia naturalmente.

Quando o sol começou a desaparecer atrás dos telhados antigos, Carolina levantou-se.

— Amanhã vou desenhar junto ao castelo.

Se ainda estiveres por Chaves...

Afonso sorriu.

— Estarei.

Ela voltou a sorrir.

Um sorriso tranquilo.

Daqueles que permanecem na memória muito depois de desaparecerem.

Enquanto a observava afastar-se lentamente pelas ruas iluminadas, Afonso teve uma sensação difícil de explicar.

Chegara a Chaves apenas para descansar.

Mas começava a acreditar que o verdadeiro motivo daquela viagem ainda estava por descobrir.

Naquela noite, antes de adormecer, abriu a janela do quarto.

Ao longe ouviam-se apenas os sinos da cidade e o som suave do rio.

Sorriu sozinho.

Sem perceber exatamente porquê, tinha a certeza de que o dia seguinte iria mudar alguma coisa dentro dele.

E essa certeza tinha o nome de Carolina.

Uma Paixão Nascida em Chaves

PARTE 2 – Onde o Tempo Abrandou

Na manhã seguinte, Afonso acordou antes mesmo de o despertador tocar.

A luz suave atravessava as cortinas do quarto e iluminava lentamente os telhados antigos de Chaves.

Pela primeira vez em muito tempo, não pensou no trabalho.

Nem nas reuniões.

Nem nos prazos.

Pensou apenas no sorriso de Carolina.

Depois do pequeno-almoço, caminhou até ao Castelo de Chaves.

A cidade ainda despertava lentamente.

As ruas encontravam-se tranquilas, algumas lojas preparavam-se para abrir e o aroma do café acabado de fazer misturava-se com o das castanhas assadas que começavam a surgir nas bancas da praça.

Quando chegou ao castelo, encontrou Carolina sentada sobre um antigo muro de pedra.

O caderno encontrava-se novamente aberto.

Desenhava cuidadosamente uma das torres.

Ao ouvir os passos de Afonso, levantou os olhos.

Sorriu.

— Sabia que vinhas.

Ele riu-se.

— Como tinhas tanta certeza?

Ela fechou o caderno.

— Porque quem aprende a gostar de uma cidade acaba sempre por voltar aos lugares onde foi feliz.

Começaram a percorrer lentamente as muralhas.

Lá do alto, a vista sobre Chaves era impressionante.

O rio Tâmega serpenteava calmamente entre a cidade.

Os telhados avermelhados contrastavam com o verde das colinas.

O vento soprava suavemente.

Durante largos minutos caminharam em silêncio.

Era um silêncio confortável.

Daqueles que apenas existem quando duas pessoas já não precisam de preencher cada instante com palavras.

Foi Carolina quem falou primeiro.

— Sabes qual é o meu maior medo?

Afonso olhou para ela.

— Qual?

— Que um dia as pessoas deixem de reparar na beleza das pequenas coisas.

Ele permaneceu atento.

Ela continuou.

— Hoje toda a gente fotografa tudo.

Mas quase ninguém observa verdadeiramente.

Param cinco segundos.

Depois seguem caminho.

Afonso sorriu.

— Talvez por isso os teus desenhos sejam tão especiais.

Ela olhou para ele.

— Porque passo muito tempo a olhar.

Continuaram a caminhada até um pequeno jardim escondido junto às muralhas.

Sentaram-se num banco voltado para a cidade.

Carolina abriu novamente o caderno.

Mostrou-lhe dezenas de desenhos.

Monumentos.

Ruas.

Janelas antigas.

Portas de madeira.

Pessoas anónimas sentadas em cafés.

Cada ilustração parecia guardar uma história.

— Nunca publicaste isto?

Ela abanou a cabeça.

— Ainda não.

São memórias.

Cada desenho lembra-me uma pessoa ou um momento importante.

Afonso percebeu que aquele caderno era muito mais do que uma coleção de ilustrações.

Era um pedaço da vida dela.

Ao início da tarde desceram até ao centro histórico.

Almoçaram num pequeno restaurante familiar onde provaram especialidades tradicionais da região.

A conversa tornou-se cada vez mais pessoal.

Afonso contou-lhe que perdera o pai poucos anos antes.

Foi precisamente essa perda que o fizera trabalhar cada vez mais.

Como se o trabalho pudesse preencher o vazio.

Carolina ouviu tudo sem interromper.

Depois respondeu baixinho.

— Às vezes ocupamo-nos tanto para não sentir saudades... que acabamos por deixar de viver.

As palavras ficaram suspensas entre ambos.

Ao final da tarde decidiram regressar à margem do rio.

Percorreram novamente a antiga ponte romana.

O reflexo das árvores desenhava-se na água.

Carolina parou a meio da ponte.

Olhou para a paisagem durante alguns segundos.

Depois disse:

— Sabes...

Há cidades que apenas visitamos.

E há outras que acabam por mudar alguma coisa dentro de nós.

Afonso respondeu imediatamente.

— Acho que Chaves está a fazer exatamente isso comigo.

Ela sorriu.

Mas naquele sorriso havia agora uma emoção diferente.

Mais profunda.

Mais próxima.

Quando regressaram ao centro da cidade, o céu começava lentamente a ganhar tons dourados.

As luzes acendiam-se uma a uma.

O ambiente tornava-se ainda mais acolhedor.

Antes de se despedirem, Carolina respirou fundo.

— Amanhã regressas a casa?

Ele confirmou.

— Sim.

Ao final da tarde.

Ela baixou ligeiramente os olhos.

Sorriu.

— Então amanhã teremos apenas mais algumas horas.

Afonso permaneceu alguns segundos em silêncio.

Depois respondeu calmamente.

— Talvez sejam precisamente essas horas que façam toda a diferença.

Enquanto a via afastar-se lentamente pelas ruas antigas de Chaves, percebeu finalmente que aquela viagem deixara de ser apenas um fim de semana de descanso.

Transformara-se no início de uma história que jamais conseguiria esquecer.

E, pela primeira vez em muitos anos, desejou sinceramente que o tempo passasse muito mais devagar.

Uma Paixão Nascida em Chaves

PARTE 3 – O Amor Que Ficou Para Sempre

O último dia em Chaves amanheceu envolvido por uma leve neblina que lentamente dava lugar ao sol.

Afonso abriu a janela do quarto do hotel.

O som do rio Tâmega chegava suavemente até si, misturado com os sinos das igrejas e o movimento discreto da cidade que despertava.

Sobre a mesa permanecia um pequeno desenho que Carolina lhe oferecera na tarde anterior.

Era a antiga ponte romana.

No canto inferior existia apenas uma frase escrita a lápis.

"Há encontros que não se explicam. Apenas acontecem."

Afonso sorriu.

Guardou cuidadosamente o desenho dentro do livro que trazia consigo.

Poucos minutos depois recebeu uma mensagem.

"Encontra-me junto às termas. Ainda existe um lugar que quero mostrar-te antes de partires."

Saiu imediatamente.

Ao chegar às antigas Termas de Chaves, Carolina já o esperava.

Vestia um casaco claro e um vestido azul-escuro que contrastava com as folhas douradas espalhadas pelo chão.

Ao vê-lo aproximar-se, sorriu.

O mesmo sorriso tranquilo que transformara completamente aqueles três dias.

Sem necessidade de muitas palavras, começaram a caminhar.

Percorreram lentamente os jardins das termas, atravessaram pequenas ruas de pedra e voltaram uma última vez à velha ponte romana.

O rio seguia o seu percurso sereno.

Como se o tempo ali tivesse outro ritmo.

Chegaram finalmente a um pequeno miradouro sobre a cidade.

Quase ninguém conhecia aquele lugar.

Dali era possível observar o castelo, os telhados antigos, o rio e as colinas que rodeavam Chaves.

Sentaram-se lado a lado.

Durante alguns minutos permaneceram em silêncio.

Foi Carolina quem falou primeiro.

— Sabes porque gosto tanto deste lugar?

Afonso abanou a cabeça.

— Porque daqui percebemos que nenhuma cidade é feita apenas de monumentos.

É feita das pessoas que nela vivem.

Das histórias que ali começam.

E das memórias que levamos connosco.

Afonso sorriu.

— Acho que vou levar muito mais do que fotografias.

Ela olhou para ele.

— Eu também.

Ao início da tarde regressaram ao centro histórico.

Entraram numa pequena livraria antiga onde Carolina costumava comprar cadernos para os seus desenhos.

Enquanto ela escolhia um novo bloco de papel, Afonso observava uma vitrina com objetos artesanais.

Foi então que encontrou uma pequena caixa de madeira de castanheiro, trabalhada à mão por um artesão da região.

Comprou-a discretamente.

Sem que Carolina percebesse.

Pouco antes da partida, caminharam novamente até à ponte onde tudo parecia ter começado.

Afonso retirou a pequena caixa do bolso.

Entregou-lha.

Carolina abriu-a lentamente.

No interior encontrava-se um pequeno medalhão em prata.

Gravado nele estava o contorno da ponte romana de Chaves.

No verso, apenas uma frase.

"Foi aqui que o destino nos apresentou."

As lágrimas surgiram-lhe imediatamente.

Olhou para Afonso.

— Nunca ninguém me ofereceu algo tão significativo.

Ele sorriu.

— Porque nunca nenhum lugar me ofereceu alguém como tu.

Chegara finalmente o momento da despedida.

Dirigiram-se juntos até à estação.

O autocarro aproximava-se lentamente.

Nenhum dos dois queria dizer adeus.

Porque ambos sentiam que aquela história não podia terminar ali.

Afonso segurou delicadamente as mãos de Carolina.

— Posso fazer-te uma pergunta?

Ela sorriu entre lágrimas.

— Claro.

— Queres que Chaves seja apenas a cidade onde nos conhecemos...

...ou o lugar onde começou a nossa vida?

Carolina não respondeu logo.

Apenas o abraçou demoradamente.

Depois olhou-o nos olhos.

Sorriu.

O mesmo sorriso sereno do primeiro dia.

— Quero que seja o lugar para onde regressaremos sempre.

O autocarro partiu.

Mas nenhum dos dois sentiu verdadeiramente uma despedida.

Nos meses seguintes, as viagens tornaram-se frequentes.

Afonso regressava regularmente a Chaves.

Carolina viajava até ao Porto, onde ele vivia.

Conheceram as famílias.

Partilharam novos projetos.

Descobriram novas cidades.

Mas, por mais lugares que visitassem, havia um destino ao qual regressavam sempre.

Chaves.

Porque era ali que tudo fazia sentido.

Um ano depois, exatamente no mesmo miradouro onde tinham observado toda a cidade, Afonso surpreendeu Carolina.

Ajoelhou-se calmamente.

Retirou uma pequena caixa de veludo.

Olhou-a nos olhos.

— Vim a Chaves à procura de descanso.

Mas encontrei muito mais.

Encontrei a mulher que me ensinou a viver devagar, a observar os pequenos detalhes e a acreditar novamente no amor.

Queres continuar a desenhar esta história comigo para o resto da vida?

As lágrimas escorreram pelo rosto de Carolina.

Mas o sorriso permaneceu.

Aquele sorriso que dera início a tudo.

— Sim.

Naquele instante, o vento percorreu suavemente as muralhas antigas.

Os sinos voltaram a ecoar pela cidade.

O rio continuou tranquilamente o seu caminho.

E Chaves guardou mais uma história entre as suas ruas de pedra.

Porque existem viagens que terminam quando regressamos a casa.

Mas existem outras que apenas começam.

A deles nasceu numa cidade tranquila do norte de Portugal.

Entre uma ponte romana, um caderno de desenhos e dois corações que descobriram que, por vezes, basta um encontro inesperado para mudar completamente uma vida.

Fim.

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