O Primeiro Beijo ao Pôr do Sol
O Primeiro Beijo ao Pôr do Sol
PARTE 1 – O Dia em Que o Horizonte Mudou Tudo
O verão aproximava-se do fim em Nazaré.
O oceano estendia-se até ao horizonte como um enorme espelho azul, interrompido apenas pelas ondas que rebentavam suavemente na praia. As ruas estreitas enchiam-se do aroma do peixe grelhado, das flores nas varandas e da maresia que fazia parte da identidade daquela vila desde tempos antigos.
Tiago chegou à Nazaré numa sexta-feira ao início da tarde.
Era fotógrafo de viagens e preparava um novo livro dedicado às mais belas paisagens costeiras de Portugal.
Depois de semanas entre aeroportos, hotéis e longas horas de trabalho, precisava de permanecer alguns dias num lugar onde pudesse fotografar sem horários e viver sem pressa.
Instalou-se numa pequena hospedaria com vista para o mar.
Mal deixou a mala no quarto, saiu para caminhar.
Levava apenas a máquina fotográfica ao ombro e um pequeno caderno onde costumava escrever ideias para futuras exposições.
Percorreu lentamente o areal, fotografando pescadores que recolhiam as redes, crianças que construíam castelos de areia e o voo elegante das gaivotas sobre o Atlântico.
Ao aproximar-se do funicular que liga a praia ao Sítio da Nazaré, reparou numa mulher sentada num banco de madeira.
Tinha diante de si um cavalete de pintura.
Os cabelos castanhos eram suavemente movidos pela brisa marítima e um vestido branco refletia a luz quente da tarde.
Pintava o mar.
Mas não copiava apenas a paisagem.
Parecia tentar captar a emoção daquele momento.
Enquanto Tiago procurava um ângulo para fotografar o farol, uma rajada de vento fez voar algumas folhas do bloco de desenhos da jovem.
Sem hesitar, correu para as apanhar antes que fossem levadas em direção à praia.
Ela levantou-se rapidamente.
— Obrigada... se não fosses tu, metade do meu trabalho acabava no mar.
Tiago sorriu enquanto lhe entregava as folhas.
— Seria uma pena. São demasiado bonitas para desaparecerem assim.
Ela observou-o durante alguns segundos.
Depois sorriu.
— Chamo-me Mariana.
— Tiago.
As apresentações deram lugar a uma conversa inesperadamente natural.
Mariana era ilustradora e preparava uma coleção inspirada nas paisagens costeiras portuguesas.
Sempre que iniciava um novo projeto escolhia uma vila diferente para viver durante alguns dias.
Gostava de conhecer as pessoas, ouvir histórias locais e pintar aquilo que não aparecia nos postais turísticos.
Tiago comentou:
— Acho curioso.
Também procuro exatamente isso com a fotografia.
Aquilo que quase ninguém vê.
Mariana respondeu sorrindo:
— Talvez seja por isso que acabámos por nos encontrar.
Decidiram subir juntos até ao miradouro do Sítio.
À medida que o funicular subia lentamente, a vista sobre a praia tornava-se cada vez mais impressionante.
Lá em cima, o Atlântico parecia infinito.
O vento fazia mover o vestido de Mariana e transportava consigo o cheiro intenso do mar.
Caminharam até junto ao farol.
Tiago fotografava discretamente a paisagem.
Mariana desenhava pequenos detalhes no seu caderno.
Durante largos minutos permaneceram quase em silêncio.
Mas era um silêncio confortável.
Daqueles que surgem quando duas pessoas descobrem que apreciam o mundo da mesma forma.
Foi Mariana quem falou primeiro.
— Sabes porque gosto tanto dos fins de tarde?
Tiago abanou a cabeça.
— Porque o pôr do sol nunca acontece duas vezes da mesma maneira.
Todos os dias conta uma história diferente.
Tiago olhou demoradamente para o horizonte.
Depois respondeu:
— Talvez seja por isso que continuo a fotografá-lo.
Nunca encontro dois iguais.
Ao final da tarde sentaram-se no miradouro voltado para o oceano.
As primeiras cores douradas começavam a refletir-se sobre a água.
Algumas embarcações regressavam lentamente ao porto.
Ao longe ouviam-se apenas o som das ondas e das gaivotas.
A conversa tornou-se mais pessoal.
Falaram das viagens que ainda sonhavam fazer.
Dos livros que mais os tinham marcado.
Das pessoas que mudaram as suas vidas.
E dos momentos que gostariam de reviver.
Quando o sol começou lentamente a aproximar-se do horizonte, Tiago levantou a máquina para fotografar.
Mas acabou por baixá-la.
Mariana reparou.
— Não vais fotografar?
Ele sorriu.
— Há momentos demasiado bonitos para serem vistos através de uma objetiva.
Ela permaneceu em silêncio.
Olhou novamente para o mar.
Depois voltou a olhar para ele.
Naquele instante, ambos sentiram que aquele encontro inesperado tinha criado uma ligação difícil de explicar.
Antes de se despedirem, Mariana disse apenas:
— Amanhã volto aqui para pintar o pôr do sol.
Se ainda estiveres na Nazaré...
Tiago respondeu sem hesitar.
— Estarei.
Enquanto a via afastar-se lentamente pelas ruas do Sítio, iluminadas pelos últimos raios dourados daquele dia, percebeu que aquela viagem deixara de ser apenas mais um trabalho.
Sem saber exatamente porquê, tinha a certeza de que o pôr do sol do dia seguinte lhe reservaria uma memória que jamais conseguiria esquecer.
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PARTE 2 – O Momento Que Precedeu o Beijo
Na manhã seguinte, Tiago acordou muito antes do nascer do sol.
Da janela do pequeno quarto onde estava hospedado, observava o mar ainda envolto por uma fina neblina. A vila da Nazaré despertava lentamente. Os pescadores preparavam as embarcações, algumas varinas organizavam as bancas junto ao mercado e o aroma do café acabado de fazer espalhava-se pelas ruas.
Enquanto tomava o pequeno-almoço, percebeu que pensava constantemente em Mariana.
Não apenas pela beleza.
Mas pela forma como observava o mundo.
Pela calma das suas palavras.
E pela maneira como transformava pequenos momentos em memórias.
Pouco depois recebeu uma mensagem.
"Vou passar a manhã junto ao Forte de São Miguel. Se te apetecer fotografar as ondas, aparece."
Tiago sorriu.
Não precisou de pensar duas vezes.
Quando chegou ao Forte de São Miguel Arcanjo, Mariana já desenhava junto às muralhas.
O vento fazia mover suavemente as folhas do seu bloco de papel.
Ao vê-lo aproximar-se, levantou os olhos.
Sorriu.
— Sabia que vinhas.
Tiago respondeu entre risos.
— Acho que também já sabia.
Durante toda a manhã caminharam pelos trilhos sobre as falésias.
Paravam frequentemente para contemplar o oceano.
Tiago fotografava a força das ondas.
Mariana desenhava a luz refletida na água.
Cada um observava o mundo através da sua arte.
Mas, curiosamente, pareciam procurar exatamente a mesma beleza.
Ao aproximarem-se do farol, encontraram um pequeno banco de madeira voltado para o Atlântico.
Sentaram-se.
Durante largos minutos ninguém falou.
O vento soprava suavemente.
As gaivotas cruzavam o céu.
O som das ondas preenchia todo o ambiente.
Foi Mariana quem interrompeu o silêncio.
— Sabes qual é a maior diferença entre uma fotografia e um desenho?
Tiago olhou para ela.
— Qual?
— A fotografia guarda um instante.
O desenho guarda o tempo que passámos a observá-lo.
Tiago sorriu.
— Nunca tinha pensado nisso.
Ela fechou lentamente o caderno.
— Acho que as pessoas também são assim.
Algumas conhecemo-las durante poucos minutos.
Outras demoram tempo a revelar quem realmente são.
A conversa prolongou-se durante horas.
Falaram da infância.
Das viagens que ainda desejavam fazer.
Das perdas que os tornaram mais fortes.
Dos sonhos que ainda guardavam.
Quanto mais conversavam, mais natural parecia aquela proximidade.
Ao início da tarde desceram novamente até à praia.
Almoçaram numa pequena esplanada com vista para o mar.
Não havia pressa.
Nem necessidade de impressionar.
Apenas duas pessoas que descobriam, pouco a pouco, que tinham muito mais em comum do que imaginavam.
Quando terminaram, Mariana olhou para o relógio.
Sorriu.
— Ainda faltam algumas horas para o pôr do sol.
Quero mostrar-te um lugar.
Percorreram um pequeno trilho afastado do movimento turístico.
Chegaram a uma pequena arriba onde quase ninguém passava.
Lá em baixo, o oceano estendia-se até perder de vista.
As ondas quebravam lentamente nas rochas.
Era um lugar silencioso.
Íntimo.
Perfeito para terminar o dia.
Sentaram-se lado a lado.
Sem dizerem nada.
O céu começava lentamente a ganhar tons dourados.
Laranja.
Rosa.
Vermelho.
Tiago observava discretamente Mariana.
A luz do final da tarde iluminava-lhe o rosto de uma forma delicada.
Ela percebeu.
Sorriu.
— Estás a olhar para mim... ou para a luz?
Ele respondeu com sinceridade.
— Para os dois.
Porque hoje já não consigo separar uma coisa da outra.
Mariana baixou ligeiramente os olhos.
Sentia o coração acelerar.
Nunca um elogio lhe parecera tão verdadeiro.
O sol aproximava-se lentamente do horizonte.
O silêncio voltou a instalar-se entre ambos.
Mas já não era apenas um silêncio confortável.
Era a expectativa de quem sente que um momento especial está prestes a acontecer.
Mariana aproximou lentamente a mão da dele.
Sem pressa.
Sem hesitação.
Tiago entrelaçou os dedos nos dela.
Olharam novamente para o mar.
O céu incendiava-se de cores.
Ela sorriu discretamente.
— Acho que este vai ser o pôr do sol mais bonito que alguma vez vi.
Tiago respondeu baixinho.
— Também eu.
Mas não apenas por causa da paisagem.
Mariana olhou para ele.
Os seus olhares encontraram-se.
Durante alguns segundos o mundo pareceu desaparecer.
Apenas existiam o mar.
O vento.
Aquela luz dourada.
E dois corações que começavam finalmente a compreender aquilo que ambos já sentiam desde o primeiro encontro.
Sem saberem ainda, aquele pôr do sol estava prestes a transformar-se na memória mais bonita das suas vidas.
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PARTE 3 – Um Beijo Iluminado Pelo Horizonte
O céu começava lentamente a transformar-se numa tela de tons dourados, laranja e vermelho.
O oceano refletia cada cor como se quisesse guardar aquele instante para sempre.
Tiago e Mariana permaneciam sentados sobre a falésia, em silêncio.
As suas mãos continuavam entrelaçadas.
Nenhum dos dois sentia necessidade de dizer fosse o que fosse.
O som das ondas preenchia todo o ambiente.
Ao longe, algumas embarcações regressavam lentamente ao porto da Nazaré, enquanto as gaivotas desenhavam círculos sobre o mar.
Mariana respirou profundamente.
— Sabes...
Há momentos que passamos anos à espera sem sequer sabermos que eles existem.
Tiago virou-se para ela.
— Acho que este é um desses momentos.
Ela sorriu.
O vento afastou delicadamente uma madeixa do seu cabelo.
Tiago aproximou-se e, com toda a delicadeza, colocou-a atrás da sua orelha.
Mariana fechou os olhos por um breve instante.
Sentia o coração bater cada vez mais depressa.
Nunca se sentira tão tranquila na presença de alguém que conhecia há tão pouco tempo.
Olhou novamente para ele.
Os seus olhares encontraram-se.
Não havia pressa.
Não havia dúvidas.
Apenas duas pessoas que tinham aprendido, em apenas dois dias, a admirar-se profundamente.
Enquanto o último raio de sol desaparecia lentamente no horizonte, Tiago aproximou-se um pouco mais.
Parou por um instante.
Como quem pede permissão apenas através do olhar.
Mariana respondeu com um sorriso sereno.
Foi então que aconteceu.
O primeiro beijo.
Suave.
Demorado.
Cheio de emoção.
Não foi um beijo impulsivo.
Nem inesperado.
Foi o culminar de todas as conversas, de todos os silêncios, de todos os passeios e de todos os olhares que haviam partilhado desde o primeiro encontro.
Quando se afastaram, permaneceram com as testas encostadas.
Mariana sorriu discretamente.
— Acho que nunca mais vou conseguir olhar para este pôr do sol da mesma maneira.
Tiago respondeu baixinho.
— Nem eu.
Porque, a partir de hoje, ele fará sempre parte da nossa história.
Ficaram mais algum tempo a observar o mar.
As primeiras estrelas começavam a surgir no céu.
A brisa tornava-se mais fresca.
Mas nenhum dos dois queria abandonar aquele lugar.
Era como se o tempo tivesse decidido parar apenas para lhes oferecer aquele instante.
Ao regressarem lentamente pelas ruas iluminadas da Nazaré, caminhavam lado a lado.
Já não existia qualquer distância entre eles.
Pararam numa pequena pastelaria ainda aberta.
Sentaram-se junto à janela.
Conversaram durante horas.
Falaram dos lugares que ainda sonhavam conhecer.
Dos projetos que desejavam concretizar.
Das cidades onde imaginavam viver um dia.
E perceberam que, apesar de terem seguido caminhos diferentes durante tantos anos, procuravam exatamente o mesmo.
Uma vida simples.
Cheia de significado.
Na manhã seguinte chegou finalmente o momento da despedida.
Mariana aguardava junto ao funicular.
Trazia consigo uma pequena caixa cuidadosamente embrulhada.
Entregou-a a Tiago.
— Só a podes abrir quando chegares a casa.
Ele sorriu.
— Prometo.
Abraçaram-se demoradamente.
Nenhum dos dois queria dizer adeus.
Porque ambos sabiam que aquilo não era um fim.
Era apenas o início.
Quando Tiago chegou a casa, abriu cuidadosamente a pequena caixa.
No interior encontrou uma pintura em aguarela.
Representava exatamente o instante do pôr do sol.
Duas silhuetas sentadas sobre a falésia, voltadas para o oceano.
No verso existia apenas uma frase escrita pela mão de Mariana.
"Existem pores do sol lindos.
Mas apenas um ficará para sempre no meu coração.
O primeiro que vi contigo."
Tiago emocionou-se.
Pegou imediatamente no telemóvel.
Ligou-lhe.
Antes mesmo de ela dizer qualquer palavra, respondeu:
— Quando posso voltar à Nazaré?
Mariana riu-se do outro lado da chamada.
— Sempre que o teu coração sentir saudades.
E foi exatamente isso que aconteceu.
Os meses transformaram-se em viagens frequentes.
Ora era Tiago quem regressava à Nazaré.
Ora era Mariana quem seguia até Lisboa.
Voltaram muitas vezes ao mesmo miradouro.
Sempre ao final da tarde.
Sempre para assistir ao pôr do sol.
Porque aquele lugar deixara de ser apenas um dos mais bonitos da costa portuguesa.
Passara a ser o lugar onde aprenderam que o amor, tal como o mar, nunca tem pressa.
Um ano depois, exatamente na mesma falésia onde trocaram o primeiro beijo, Tiago voltou a segurar delicadamente as mãos de Mariana.
Retirou uma pequena caixa de veludo do bolso.
Olhou-a nos olhos.
Sorriu.
— Vim à Nazaré para fotografar o pôr do sol.
Mas encontrei algo muito mais bonito.
Encontrei a mulher com quem quero ver todos os fins de tarde da minha vida.
Queres casar comigo?
As lágrimas iluminaram imediatamente o rosto de Mariana.
Sorriu.
O mesmo sorriso que Tiago nunca esqueceu desde o primeiro dia.
Respondeu apenas:
— Sim.
Naquele instante, o sol voltou lentamente a desaparecer sobre o Atlântico.
Como se o horizonte celebrasse novamente aquela história.
Porque existem beijos que acontecem por impulso.
E existem outros que ficam gravados para sempre.
O deles nasceu no silêncio de um fim de tarde, diante do oceano.
E tornou-se o primeiro capítulo de uma história de amor que teria a eternidade como horizonte.
Fim.
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